Vigilância viral em morcegos no Brasil

CIÊNCIA HOJE

Vigilância viral em morcegos no Brasil

Conhecer e monitorar a diversidade de vírus que infectam as espécies desse grupo no nosso país é muito importante para detectar potenciais ameaças de novas epidemias ou pandemias, mas ainda existem muitas lacunas no estudo desses patógenos

 

CRÉDITO: FOTO EDER BARBIER

Os morcegos são um dos grupos de mamíferos mais diversos do planeta, atrás apenas dos roedores em número de espécies. Eles estão espalhados por todos os continentes, exceto a Antártica, e desempenham importantes serviços para os ecossistemas, como polinizar plantas, espalhar sementes e promover o controle populacional de insetos, incluindo pragas agrícolas e vetores de doenças urbanas. Mas, mesmo com todo o impacto positivo desses serviços, os morcegos são mais popularmente conhecidos por carregarem vírus que podem provocar doenças no ser humano. Essa imagem tornou-se ainda mais presente na visão popular devido à pandemia de covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, cujo parente mais próximo se originou em morcegos do sudeste asiático. Embora evidências científicas mostrem que os morcegos não foram os transmissores diretos do vírus para humanos e nem são reservatórios virais especiais, se comparados com outros mamíferos, a visão de que eles foram os ‘culpados’ pela pandemia infelizmente ainda permanece.

Hoje existem evidências na África, Ásia e Oceania de que vírus que causam doenças no ser humano são transportados por morcegos e têm esses mamíferos como hospedeiros principais ou secundários. Essa lista inclui os vírus Ebola, Hendra e Nipah, além de coronavírus como o MERS e outros do grupo SARS. O conhecimento sobre os vírus que infectam morcegos tem demonstrado a importância de entender como esses mamíferos conseguem conviver com diversos patógenos sem apresentar sinais de infecção ou mesmo morrer em decorrência do contágio. O estudo das respostas imunológicas diferenciadas dos morcegos pode ser a chave para o enfrentamento da próxima grande pandemia. 

Mas e no Brasil, o que sabemos sobre os morcegos e seus vírus? Os biomas brasileiros estão entre os mais biodiversos do mundo, e isso também se reflete na alta diversidade de morcegos: até o momento, são conhecidas 181 espécies, mas outras já estão em processo de descrição no país. Em contrapartida, embora o Brasil tenha tradição no estudo de vírus em morcegos, uma pesquisa recente mostrou que menos de 50% de nossas espécies já foram estudadas quanto à presença viral. A maior parte desses estudos está focada em poucas espécies de morcegos e concentrada nas regiões Sudeste e Sul do país, enquanto nas regiões Norte e Centro-oeste, onde a riqueza de espécies é maior, os estudos são escassos. O estado de São Paulo, por exemplo, já teve mais da metade de suas espécies de morcegos estudadas para vírus até agora. Outro ponto é que a maior parte dos estudos foi realizada com espécies previamente identificadas como reservatórios de certos patógenos humanos, como o morcego vampiro Desmodus rotundus, que tem ampla distribuição no Brasil e é um reconhecido reservatório do vírus da raiva.

A descoberta viral e a vigilância de vírus zoonóticos são de extrema importância para a detecção de potenciais novas ameaças epidêmicas e pandêmicas em países super diversos, que sofrem com a destruição de hábitats e o maior contato com animais silvestres, como o Brasil

Essas limitações no estudo dos vírus que infectam morcegos no Brasil não se referem apenas ao número de espécies investigadas, mas também à pouca representatividade geográfica e temporal dessas espécies e às metodologias empregadas na detecção viral. Por exemplo, o vírus da raiva e os coronavírus são os mais estudados em morcegos no nosso país, mas essas pesquisas usam metodologias que permitem a detecção somente desses vírus ou de linhagens relacionadas. Ou seja, de maneira geral, estamos usando técnicas capazes de identificar principalmente vírus já conhecidos, mas que não nos permitem obter a caracterização da comunidade viral completa que infecta esses mamíferos, o chamado viroma. Somente 12 dos 81 estudos catalogados utilizaram metodologias que permitiriam uma ampla detecção viral. Essas constatações revelam o quão pouco sabemos sobre o viroma de morcegos que habitam os biomas brasileiros. Com exceção do vírus da raiva, há uma grande lacuna de conhecimento sobre outros vírus que infectam morcegos no Brasil e, consequentemente, sobre o potencial de serem danosos para morcegos e humanos.

A descoberta viral e a vigilância de vírus zoonóticos (que infectam animais silvestres, domésticos e humanos) são de extrema importância para a detecção de potenciais novas ameaças epidêmicas e pandêmicas em países super diversos, que sofrem com a destruição de hábitats e o maior contato com animais silvestres, como o Brasil. Assim como os morcegos, até o momento estamos voando no escuro. Mas, ao contrário deles, não temos o avançado mecanismo de ecolocalização que lhes permite navegar e superar seus obstáculos. Nosso obstáculo agora é conhecer a diversidade viral circulante nos animais silvestres do nosso país e seu potencial zoonótico.

 

Gabriel da Luz Wallau
Departamento de Entomologia e Núcleo de Bioinformática
Instituto Aggeu Magalhães
Fundação Oswaldo Cruz – Recife (Pernambuco)
Departamento de Arbovirologia e Entomologia
Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical – Hamburgo (Alemanha)

Eder Barbier e Enrico Bernard
Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade
Departamento de Zoologia, Centro de Biociências
Universidade Federal de Pernambuco

 
Texto publicado originalmente na coluna 'Conexão Ciência e Saúde', na revista Ciência Hoje n.º 402.
 
 

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