Redes de colaboração científica: integrando competências para inovar em saúde

Redes de colaboração científica: integrando competências para inovar em saúde

O trabalho colaborativo e a análise das relações entre seus diferentes atores são essenciais para orientar estratégias e impulsionar o desenvolvimento tecnológico na área.

As crescentes complexidade e multidisciplinaridade da atividade científica evidenciam a necessidade do trabalho colaborativo em rede. A formação de redes se tornou um importante instrumento de políticas de ciência e tecnologia (C&T), sendo incentivada pelas agências de fomento como forma de acelerar a geração de novos conhecimentos e de reduzir a competição e a duplicação de esforços.

Na área da saúde, o trabalho em rede é ainda mais importante. O percurso da inovação da ‘bancada ao leito’ é complexo, dinâmico e, muitas vezes, caracterizado pela incorporação de novos paradigmas tecnológicos. As competências necessárias para avançar de uma descoberta científica até um produto final que seja disponibilizado no mercado envolvem diferentes áreas do conhecimento. Esse processo também depende de parcerias e de sólida infraestrutura de pesquisa. Nesse contexto, estar inserido em uma rede de colaboração é fundamental para os países com menor nível de desenvolvimento científico e tecnológico, seja para desenvolver novos produtos e serviços, seja para aumentar o acesso aos produtos e serviços existentes.

Essas redes colaborativas podem contribuir para o enfrentamento de desafios de saúde global, que geralmente requerem a aplicação de recursos científicos de ponta a diferentes realidades e contextos locais. A pandemia de Covid-19 é um desses desafios que confirmam a necessidade e os benefícios do trabalho em rede. Os esforços para conter a doença exigem alta capacidade de resposta científica e operacional, baseada em novos conhecimentos gerados por meio de colaboração e trocas de experiência. A magnitude do problema demanda análises em larga escala, síntese e tradução do conhecimento para informar políticas e práticas baseadas em evidências. As colaborações facilitam a confiança no desenvolvimento de soluções que possam ser aplicadas e escaladas, minimizando o custo e maximizando os benefícios para a população. As lições aprendidas a partir da colaboração em pesquisa podem minimizar as disparidades existentes na saúde global, particularmente no manejo dos pacientes e no desenvolvimento de fármacos, vacinas e outras soluções preventivas. A rede de colaboração em pesquisa sobre Covid-19 cresce em ritmo acelerado e já envolve cientistas de 166 países (veja figura). Em tempos de crise global, é imperativo que os cientistas sejam capazes de colaborar e compartilhar dados, e isso parece estar acontecendo de maneira espontânea.

Legenda: Rede global de colaboração em pesquisa sobre Covid-19. Cada ponto representa um país, e dois países estão graficamente conectados se suas instituições compartilham a autoria de um artigo científico. A espessura das ligações indica a intensidade da colaboração. Rede construída utilizando Gephi e mapchart.net, com dados de publicações científicas extraídos da base Scopus

A epidemia de Zika (2015-2016) é outro exemplo de emergência sanitária que mobilizou e se beneficiou de colaborações interinstitucionais, que rapidamente levaram à identificação das causas e origens da doença, ao seu diagnóstico clínico-laboratorial e à sua associação com a microcefalia congênita. Da mesma forma, durante o surto de meningite meningocócica na África (2007), a colaboração entre o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fiocruz, e o Instituto Finlay (Cuba) desenvolveu e produziu uma vacina específica, distribuída e utilizada em campanhas no ‘cinturão africano de meningite’, coordenadas por outros membros da rede – autoridades nacionais, serviços médicos internacionais, ONGs locais e outras instituições.

A análise das redes de colaboração tem o potencial de fornecer informações para planejamento estratégico em C&T, orientar planos de ação e investimento e subsidiar a tomada de decisão. A metodologia de análise de redes sociais (ARS) permite mapear, entender e estimar, por meio de métricas específicas, as relações entre diferentes atores de uma rede, sejam eles indivíduos, organizações ou países. É possível identificar lideranças e elementos catalisadores, verificar a formação de grupos, analisar a evolução da conectividade, identificar áreas temáticas e lacunas de conhecimento, avaliar o papel das parcerias entre diferentes regiões e entre entes públicos e privados etc.

“A análise de redes em C&T contribui de maneira inovadora para a avaliação do comportamento colaborativo da comunidade científica, revelando a estrutura de cooperação combinada com informações sobre os participantes da rede”

No CDTS, nosso grupo tem realizado estudos estratégicos com base na ARS, utilizando programas computacionais analíticos e de visualização para o estudo da cooperação científica e tecnológica para inovação. Analisamos a rede brasileira de pesquisa em tuberculose, identificando as instituições centrais e pesquisadores que mantêm a conectividade da rede e que poderiam atuar como assessores ou especialistas em políticas de investimento e indução. Já a análise da rede de pesquisa em dengue demonstrou a expansão significativa da colaboração brasileira ao longo dos anos, o aumento da parceria internacional e a eficácia da rede na geração, no compartilhamento e na difusão do conhecimento, apesar da quase ausência de colaboração com o setor privado. 

Recentemente, tivemos um projeto aprovado no Programa Inova Fiocruz, para analisar a evolução das redes colaborativas de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação sobre Covid-19. O objetivo é conhecer a dinâmica, liderança e capacidade da resposta científica no combate à pandemia, no contexto de um sistema global de pesquisa em saúde.

A análise de redes em C&T contribui de maneira inovadora para a avaliação do comportamento colaborativo da comunidade científica, revelando a estrutura de cooperação combinada com informações sobre os participantes da rede. O grande potencial de aplicação dessa análise, decorrente da versatilidade da metodologia e das informações que podem ser recuperadas, abre novas perspectivas para o estudo da dinâmica de geração do conhecimento.

Bruna Fonseca
Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS)
Fundação Oswaldo Cruz

 

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