Como uma bactéria poderá nos proteger da dengue?

CIÊNCIA HOJE

Como uma bactéria poderá nos proteger da dengue?

Liberação no ambiente de mosquitos Aedes aegypti infectados com bactéria que impede a replicação de vírus nesses insetos tem se mostrado um método promissor de combate à dengue e outras arboviroses​

CRÉDITO: FOTO ADOBE STOCK

Uma vez por semana, um veículo com as palavras ‘Saúde Fiocruz’ estampadas no capô passa na minha rua, e um tubo cheio de mosquitos é aberto, começando um ciclo para proteger o nosso bairro. No início, achamos estranho, pois como se consegue reduzir a incidência de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, Zika e Chikungunya, liberando mais mosquitos? Esse é o método Wolbachia, um projeto inovador que utiliza uma bactéria muito comum no ambiente – a Wolbachia – e que, quando presente no mosquito Aedes aegypti, impede que os vírus se repliquem nele, reduzindo a chance de transmissão dessas doenças. A intenção é que os Aedes aegypti liberados se reproduzam com os já existentes no ambiente, gerando, aos poucos, uma nova população de mosquitos, todos com Wolbachia.

O método Wolbachia integra o World Mosquito Program (WMP), que está presente em 11 países e trabalha para proteger a população das doenças transmitidas por mosquitos (as chamadas arboviroses), sendo conduzido no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz, com apoio do Ministério da Saúde. O método é seguro, natural, autossustentável e sem fins lucrativos e apresenta potencial para alcançar impacto significativo na saúde pública em áreas endêmicas para esses vírus.

O projeto se inicia quando as equipes do programa interagem com a população e instituições parceiras para difundir informações sobre a iniciativa e promover o engajamento da comunidade onde ela será implementada. Nessa etapa, são aplicadas pesquisas que evidenciam o entendimento e a aceitação da população local sobre o método. Além disso, é constituído um comitê local – chamado Grupo Comunitário de Referência – que acompanha todas as ações realizadas na localidade, e são abertos canais de comunicação com a população, por telefone, e-mail e mídias sociais. As ações de engajamento são complementadas por um projeto-satélite, denominado Wolbito na Escola, que dissemina conteúdos relacionados ao manejo ambiental e controle de vetores, incluindo um e-book para professores com material para várias faixas de idade.

Somente depois desse processo e da aprovação da população é que as liberações de mosquitos são iniciadas. Elas ocorrem durante cerca de quatro a seis meses em determinado bairro, e podem ser realizadas por meio da soltura de mosquitos adultos com Wolbachia ou da instalação de dispositivos contendo ovos de mosquitos com a bactéria.

Para saber se os Wolbitos (nome dado aos mosquitos com Wolbachia) estão se estabelecendo no bairro, são instaladas armadilhas para ovos ou mosquitos adultos em casas ou estabelecimentos comerciais e, pelo menos uma vez por mês, o material coletado é testado por técnicas moleculares para checar a prevalência de Wolbachia. A partir daí, podemos inferir sobre a redução de casos naquela localidade que recebe o método. Em parceria com os municípios, realizamos análises das incidências de arboviroses, com base no histórico de casos das localidades, e comparamos com os dados após a implementação do método.

E já estamos colhendo bons frutos. Dados da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, mostraram que houve redução de 69% na incidência de casos de dengue e 56% nos casos de Chikungunya em áreas que receberam os Wolbitos. Esses resultados são corroborados por dados de um estudo controlado realizado em uma cidade da Indonésia que concluiu que áreas onde foram liberados mosquitos com Wolbachia tiveram uma redução de 77% no número de casos de dengue e de 86% nas hospitalizações causadas pela doença.

Hoje o método Wolbachia já está presente em cinco municípios do Brasil – Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte (MG), Campo Grande (MS) e Petrolina (PE) –, com o objetivo de proteger cerca de três milhões de habitantes das doenças transmitidas pelos mosquitos. Esperamos, cada vez mais, poder trazer essa inovação para mais cidades do Brasil e, juntamente com outras estratégias de controle, reduzir o impacto que as arboviroses têm na população brasileira. Mas também é importante que cada um continue a fazer seu dever de casa, para evitar a presença de criadouros de mosquitos, e converse com seus vizinhos para que, juntos, possamos diminuir a incidência dessas doenças.

Luciano A. Moreira
Instituto René Rachou
Fundação Oswaldo Cruz
World Mosquito Program Brasil

Texto publicado originalmente na coluna 'Conexão Ciência e Saúde', na revista Ciência Hoje n.º 389.
 
 

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