Seminário on-line do CDTS sobre COVID-19 e antivirais tem grande público

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Thiago Souza, Especialista em Virologia, falou sobre aspectos da doença e o reposicionamento de fármacos para seu tratamento

A retomada dos Seminários do CDTS, ontem (28/05), às 10hs, atraiu grande público. Mais de 100 pessoas acompanharam esse primeiro encontro de 2020, que inaugurou o formato de transmissão on-line. E, em meio à pandemia de COVID-19, o tema não poderia ser outro. O pesquisador Thiago Moreno Lopes e Souza, Especialista em Virologia do CDTS, falou sobre os principais aspectos da COVID-19 e de seu vírus causador, o SARS-CoV-2, além dos principais antivirais investigados até o momento no combate à doença.

Para introduzir o tema, Souza ressaltou que a gripe não é uma doença banal, ao contrário do que muitos podem pensar. “As infecções do trato respiratório inferior são as principais causas de morte em países em desenvolvimento”, alertou. Entre os causadores dessas infecções, estão bactérias e vírus – como o Influenza e os coronavírus.

Souza lembrou que os coronavírus não são vírus novos. Sua ação em animais e humanos já é conhecida desde meados dos anos 1960. Existem vários tipos de coronavírus, desde os que causam resfriados comuns até aqueles que provocam infecções severas do trato respiratório. Nesse último grupo, estão os vírus SARS-CoV (surgido em 2002), o Mers-CoV (identificado em 2012) e o SARS-CoV-2 (responsável pela pandemia de COVID-19).

As epidemias de SARS-CoV (2002) e Mers-Cov (2012) já haviam mostrado a gravidade da infecção provocada por esses vírus. A taxa de mortalidade do SARS-CoV foi de 10%, a do Mers-Cov foi de 35% e a do SARS-CoV-2 é de 7%. “Isso demonstra que o mundo se preparou mal para esta situação”, declarou Souza. “A única saída é o isolamento social para reduzir a disseminação do vírus”, completou, explicando que a opção inicial no Brasil foi pelo distanciamento social, e não pelo isolamento, que é o chamado ‘lock down’.

De animais para humanos

Os animais são reservatórios naturais dos coronavírus, que, depois de passar para um hospedeiro animal intermediário, são transferidos aos humanos devido à sua proximidade e convivência cada vez maior com os animais. A transferência sustentada entre humanos é possibilitada por uma série de mutações sofridas pelos vírus.

Souza destacou que esse processo de transferência dos vírus dos animais para os humanos tende a ser cada vez mais comum. “Isso traz para perto do ser humano um conjunto de agentes etiológicos contra os quais não temos imunidade, e o potencial de emergência de saúde pública se torna bastante palpável.”

Segundo ele, estudos mostram que o SARS-CoV-2 teve origem em pangolins (mamíferos que vivem na Ásia e na África), tendo migrado desses hospedeiros naturais para morcegos (hospedeiros intermediários) e destes para os humanos. Essas conclusões sobre a evolução da transmissão do vírus são o principal argumento contra a tese de que o novo coronavírus teria sido produzido em laboratório e liberado acidental ou propositalmente. “Os vírus de laboratório em geral são mais associados a vírus ancestrais e não a linhagens mais recentes, como ocorre nesse caso”, acrescenta o pesquisador.

Infecção por SARS-CoV-2

Alguns aspectos da composição e do mecanismo de infecção do SARS-CoV-2, bem como da resposta provocada no organismo, foram listados por Souza, que destacou o fato de esse vírus ter um dos sistemas de replicação mais complexos na virologia. Ele também chamou atenção para o amplo espectro da infecção causada pelo SARS-CoV-2, que vai desde o paciente assintomático transmissor até o quadro de sepse viral descontrolada, que acaba levando à falência de múltiplos órgãos.

Segundo Souza, os estudos têm mostrado que há uma primeira fase na evolução da infecção, com uma importante presença de carga viral. Entre 7 e 10 dias, há uma segunda fase (que pode ser considerada de transição), em que pode ocorrer uma resposta adequada do organismo e a infecção é controlada, ou pode haver uma resposta inflamatória exacerbada que leva a um terceiro estágio, caracterizado por uma situação crítica de coagulação sanguínea.

Reposicionamento de antivirais

A resposta mais rápida à COVID-19 é o reposicionamento de antivirais para tratar a doença. Diante do grande número de drogas já aprovadas e que já estavam sendo testadas para tratar as infecções causadas por SARS-CoV, Mers-Cov e o novo SARS-CoV, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tentou organizar, no início da pandemia de COVID-19, uma proposta de ensaio clínico global, chamada Solidariedade, que incluía quatro terapias: 1) lopinavir + ritonavir (inibidores de protease do HIV); 2) lopinavir + ritonavir + interferon (imunomodulador usado no tratamento da hepatite C); 3) remdesivir (inibidor de RNA polimerase do vírus Ebola); e 4) cloroquina (inibidor de entrada viral e imunomodulador).

“É pouco, mas parece ser melhor do que nada”

Souza apresentou resultados de estudos que usaram lopinavir, ritonavir e interferon no tratamento de COVID-19, um deles alcançando redução de 5% na taxa de mortalidade em adultos hospitalizados. “É pouco, mas parece ser melhor do que nada”.

Em relação ao remdesivir, ele citou um estudo chinês que obteve pequena melhora clínica nos pacientes tratados, mas não foi capaz de reduzir a carga viral no trato respiratório. O tratamento precoce (com menos de 10 dias) reduziu a taxa de mortalidade de 15% para 10%, mas o tratamento tardio até aumentou essa taxa. “Esse é um argumento a favor da intervenção precoce, só que o remdesivir é uma droga para administração intravenosa, o que complica seu uso nesse caso”, ponderou. Outro estudo, feito com um número maior de pacientes nos Estados Unidos, mostrou melhora clínica daqueles que usaram remdesivir; a taxa de mortalidade no grupo tratado foi de 7%, contra 12% no grupo não tratado. No entanto, não houve nenhum benefício para quem estava em ventilação mecânica, o que indica que esse fármaco não tem efeito em casos mais graves da doença. Outro problema associado ao remdesivir é que bastariam duas mutações para que o vírus se tornasse resistente à droga, o que, segundo Souza, tem alta chance de acontecer com o seu uso indiscriminado.

O pesquisador do CDTS também apresentou os resultados do estudo liderado por ele que mostrou que o fármaco atazanavir inibe a replicação do SARS-CoV-2 e reduz a produção de proteínas associadas ao processo inflamatório nos pulmões. Produzido em Far-Manguinhos, o atazanavir já tinha sido estudado em casos de fibrose pulmonar (que também é consequência muito comum em pacientes que sobrevivem à COVID-19).

Cloroquina e outras drogas

Com relação à cloroquina e hidroxicloroquina, estudos iniciais mostraram que esses fármacos são potentes contra o SARS-CoV-2 in vitro. Um estudo clínico chegou a indicar a eficácia desses fármacos, mas ele tem recebido fortes críticas, como o número muito pequeno de pacientes avaliados, entre outras. Já uma pesquisa brasileira liderada pela Fiocruz revelou que a administração de altas doses de cloroquina é tóxica e leva à maior mortalidade dos pacientes se feita no início do tratamento. Segundo Souza, a pá de cal sobre a cloroquina e a hidroxicloroquina foi um estudo que analisou 98 mil pacientes (finalizando com 96 mil) e mostrou que o uso desses fármacos gera maior mortalidade do que a ausência de tratamento. Em alguns casos, a cloroquina administrada em baixas doses aumentou a replicação viral. “Esse estudo levou a OMS a suspender a cloroquina de seu ensaio clínico global.”

Souza acredita que a tendência no combate à COVID-19 é avançar para terapias duplas e até triplas, eventualmente. “O que se tem feito é o reposicionamento dos fármacos para uso precoce”. Ele ressaltou que a possibilidade de mutação do vírus reforça a contínua necessidade de investigação de novas drogas. “Hoje podemos dizer o que não funciona, e as evidências apontam contra a cloroquina. Mas o antiviral ideal ainda está por vir.”

Questionado sobre a menor incidência da COVID-19 na população infantil, Souza frisou que muitas crianças se infectam, mas tendem a ser assintomáticas. “No entanto, isso não representa uma percepção de segurança”, alertou, acrescentando que as crianças podem transmitir o vírus por um tempo até maior que os adultos. “Há relatos de excreção viral por crianças durante quatro semanas”, disse, ressaltando o risco de transmissão para o público mais vulnerável.

Os Seminários do CDTS são realizados na última quinta-feira de cada mês e seguirão até dezembro. A curadoria de temas e convidados é feita pelas pesquisadoras Tatiana Tilli e Bruna Fonseca, do CDTS.

 

Por Thaís Fernandes
Equipe de comunicação do CDTS

 

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