Equipe de coordenação do CDTS fala sobre o impacto e papel de políticas públicas na pandemia por Sars-Cov-2

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O CDTS/Fiocruz participou como convidado do Seminário Covid-19 e Sars-CoV-2: impacto e papel das políticas públicas, organizado pela Pós-Graduação em Políticas Públicas Estratégia e Desenvolvimento (PPED/UFRJ), nesta última segunda, dia 4 de maio. O evento online contou com a presença da equipe de coordenação do CDTS com Carlos Morel, Coordenador Geral; Marcos Freire, Vice Coordenador Geral de Desenvolvimento Tecnológico; e Thiago Moreno L. Souza, Vice Coordenação Geral de Inovação. 

Uma breve história das mais conhecidas pandemias que assolaram o mundo fez parte da abertura do seminário, que ficou por conta do Professor Morel, como é conhecido, Carlos Morel. Capas de livros antológicos como O Enigma da Peste Negra, sobre a peste bubônica - que ficou popular por peste negra por conta das grandes manchas negras na pele dos infectados - foi lembrada por ser a primeira grande e aterrorizante epidemia documentada. A peste dizimou um terço da população mundial no século 14 e teve outros vários eventos ao longos dos séculos até ser controlada. Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How it Changed the World (Pale Rider: A gripe espanhola e como ela mudou o mundo - em livre tradução) trouxe outra grande epidemia, mais contemporânea, e ainda na lembrança de muita gente. A gripe, que na verdade teve origem nos Estados Unidos, se alastrou pela Europa e em sua segunda onda, se espalhou pelo mundo ficando conhecida como “espanhola” devido ao grande número de mortes na Espanha. Morel recorda que a doença chega ao Brasil pelo porto do Rio de Janeiro, e em pouco tempo corpos eram vistos amontoados pelas ruas das cidade. Zika - Do sertão nordestino à ameaça do global, sobre das atuais epidemias enfrentadas que, em particular, no nordeste brasileiro foi marcante por conta dos casos das microcefalias.

Sugestões de Carlos Morel para literatura sobre as grandes epidemias globais

Outras publicações foram lembradas pelo Professor como Emerging Viruses - AIDS & Ebola, nature, accident or intentional? (Vírus Emergentes - AIDS e Ebola, natureza, acidente ou intencional?), de 1996, para exemplificar que o debate que acompanhamos hoje é antigo e, sempre que uma epidemia é deflagrada, “os ânimos se exaltam, ninguém quer ser culpado e os dedos ficam apontados”, explica. Ao citar e indicar  o livro Spillover - animal infections and the next human pandemic (Transbordamento - infecções de animais e a próxima pandemia humana - em livre tradução) Morel afirma que: “Não é nenhum segredo que essa pandemia estava sendo esperada, existem vários livros sobre isso, que o perigo é permanente e a qualquer momento chegaria. É algo que está no radar de quem trabalha com biologia, com medicina e faz controle de epidemia. Precisamos saber é que as epidemias e seus  perigos sempre estão aí”. 

Abordando questões envolvendo o desenvolvimento de vacina no combate à Covid-19, o ex diretor de Biomanguinhos, Marcos Freire, comenta sobre os esforços efetivos e número de projetos, demonstrando que há um protagonismo significativo dessa estratégia terapêutica no controle da epidemia. Baseado em uma recente publicação da renomada revista Nature, Freire traz dados de 115 projetos em desenvolvimento para vacina contra o SARS-CoV-2. “O que chama atenção nestes gráficos, é o número de projetos ligados à indústria, ao setor privado. Outra questão é a distribuição geográfica. Basicamente, estes projetos estão distribuídos entre América do Norte, China, Europa e Austrália. Não aparece nenhuma iniciativa de busca de vacina na América do Sul. Isso chama atenção sobre financiamento, da busca e quem tem condições de manter um projeto de um desenvolvimento de vacina de forma acelerada”, pontua o Vice Coordenador do CDTS. 

Desenvolvedores de vacinas. América Latina não aparece. Gráfico de estudo publicado na Nature Reviews Drug Discovery 19, 305-306 (2020).

Com relação a produção de vacinas em uma emergência mundial, Freire comenta que, considerando questões regulatórias, o uso de tecnologias maduras, ou seja, que já são utilizadas para outras vacinas pode ser mais estratégicos Assim, as chances de prever eventos adversos, os chamados efeitos colaterais, são maiores. “Toda essa cadeia - que vai desde a descoberta até a produção da vacina - é um investimento alto. Muitos projetos saem ao longo desse caminho. Lembrando que o desenvolvimento de uma vacina pode levar de 10 a 20 anos, dependendo do investimento e condição. E algo pra se levar em conta é que, quanto mais se avança nas fases do projeto, menor o risco, contudo, maior a demanda por recursos financeiros, que pode variar em bilhões”, explica Freire. 

 Figura adaptada sobre estudo publicado na Nature 453, 840–842 (2008).

O contexto translacional na área de vacinas foi abordado no seminário. Freire explica que, o Vale da morte é uma atual dificuldade para qualquer vacina avançar. “A maior parte das vacinas que são testadas costumam cair entre a fase do pré-clínica e o registro. Muitos casos não chegam ao mercado porque não existe interesse econômico. Contudo, quando falamos de uma pandemia da magnitude do novo coronavírus, não acho que será um problema”, comenta otimista o Marcos. 

Thiago Souza começa relatando suas três linhas de atuação no CDTS: virologia translacional, patogênese e desenvolvimento de antivirais. Na virologia translacional, o resultado em laboratório tem impacto no manejo clínico do paciente. “Por exemplo, durante a epidemia de 2009, demonstramos que pacientes oncológicos com H1N1 secretavam vírus por até 60 dias. Isso implicou em quarentena e manejo diferenciado”, explica o virologista. Já na linha de patogênese, ele conta que existem estudos colaborativos com outros grupos de ciência básica para trabalhar em infecções virais. 

Na área de desenvolvimento de antivirais, Souza aborda a estratégia que tem trabalhado nos últimos 5 anos: o reposicionamento de moléculas. "Começou durantes os surtos das arboviroses como dengue, zika, chikungunya, febre amarela aqui no Brasil. Nossos resultados, resultaram em duas capas de publicação de alto impacto sobre a dispersão do vírus zika na América, na Nature, e novos métodos de sequenciamento de genomas, Nature Biotechnology. Além disso, nosso grupo mostrou que um medicamento usado para hepatite C, o sofosbuvir, inibiu a replicação do vírus zika, febre amarela e até mesmo do chikungunya. Esse resultado motivaram proposta de ensaio clínico, endossada pelo Médico Sem Fronteira como um ensaio estratégico, tanto para ampliar o sofosbuvir, como para buscar terapias específicas para arbovirosis”, exemplificou o trabalho feito no CDTS, Moreno. 

 Capa da revista Nature 546, 411–415 (2017). e estudo recente sobre Atazanavir

No seminário, Souza comentou sobre a estudos envolvendo a origem do coronavírus, um vírus respiratório, de diferente impacto em comparação as arboviroses. “Olhando a evolução dos coronavírus, chega-se às origens em morcegos e pangolins. Todo vírus que rompe a barreira animal e chega ao ser humano tem potencial pandêmico. Principalmente quando ganha a capacidade de sustentação de reprodução em humanos. De certo modo foi isso que aconteceu em 1º de março, quando a OMS declara a preocupação com uma epidemia em escala mundial.  A escala de mortes entre esse dia e hoje é uma escala sem precedentes contemporâneo”, ilustra Moreno.

O ensaio clínico global da OMS, chamado Solidariedade, do qual o CDTS faz parte, propõe quatro alternativas de reposicionamento: Lopinavir + ritonavir (inibidor de protease do HIV); Lopinavir+ritonavir+Interferon(ß) (Imunomodulador); Remdesivir (Gilead) (Inibidor da RNA polimerase do vírus Ebola); Cloriquina (Inibidor de entrada viral e imunomodulador). O grupo, do qual Thiago Moreno faz parte, entendeu que todas as terapias apresentam algum tipo de deficiência e assim, começaram a investigar outra substância, que é produzida no Brasil, o Atazanavir, que preliminarmente se mostrou promissor, como demonstrado em uma publicação recente.

O seminário foi aberto para perguntas em torno do assunto, tornando ainda mais valiosa a discussão. Foram mais de 30 minutos de conversa sobre dúvidas e previsões na pandemia do novo coronavírus. Para saber mais sobre o que foi comentado por lá, entra aqui, no youtube do CDTS

 

Cobertura do evento por Gardênia Vargas

Equipe de Comunicação do CDTS

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