Doenças causadas por fungos: um problema brasileiro de saúde pública

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Nome do Especialista: 
Marcio L. Rodrigues
Descrição Profissional: 
Farmacêutico e doutor em Microbiologia

Doenças causadas por fungos: um problema brasileiro de saúde pública

As doenças causadas por fungos, chamadas micoses, atingem hoje mais de 300 milhões de pessoas no mundo, segundo dados apresentados pelo Fundo Global de Ações contra Infecções Fúngicas(GAFFI, sigla em inglês para Global Action Fund for Fungal Infections). Nesse grupo, 25 milhões de pessoas estão sob risco de morte ou perda de visão. As estimativas mais recentes – consideradas subestimadas – sugerem que haja 1,6 milhão de mortes humanas por ano em decorrência de micoses graves. No Brasil, estimativas de 2016 sugerem que mais de 3,8 milhões de indivíduos sofram de alguma doença fúngica séria.

Esse quadro contrasta com o fato de que as alternativas hoje disponíveis para o tratamento das micoses são caras, pouco eficazes e associadas a muitos efeitos colaterais. Não há nenhuma vacina disponível capaz de prevenir micoses. Nenhuma doença fúngica tem notificação compulsória no Brasil.

 

Além de serem claramente uma questão de saúde pública, as doenças fúngicas no Brasil representam um sério problema econômico. Segundo estudo da Universidade Federal do Paraná publicado em junho de 2018, o custo do tratamento de doenças fúngicas pode superar R$ 400 mil por paciente. Considerando os números apresentados acima para prevalência das doenças fúngicas, fica clara a necessidade de investimentos na geração de ferramentas que permitam diagnóstico, tratamento e prevenção eficientes para as doenças causadas por fungos.

“Estudos demonstram um inquestionável quadro de negligência no que se refere a investimentos em pesquisa e inovação na área de micoses humanas”

Problema negligenciado

Há, entretanto, sérias limitações nessa direção. Estudos recentes do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), publicados em março de 2016 e em junho de 2018, demonstram um inquestionável quadro de negligência no que se refere a investimentos em pesquisa e inovação na área de micoses humanas. Apenas recentemente a Organização Mundial de Saúde sinalizou a classificação de micoses como doenças negligenciadas, mas ainda não há clareza sobre quais serão as doenças especificamente incluídas e quais serão as ações adotadas. Não há no Brasil e na maior parte dos países desenvolvidos nenhum programa específico de financiamento de pesquisa e inovação para doenças fúngicas. 

Reconhecendo a complexidade do problema, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos da América (CDC) lançou entre 14 e 18 de agosto de 2017 a Primeira Semana de Consciência sobre Doenças Fúngicas. Em julho de 2017, o prestigiado periódico Nature Microbiology publicou edital apoiando o fim da negligência das doenças fúngicas. Sem dúvida, essas são iniciativas positivas, porém pouco numerosas. Por isso, é fundamental que a comunidade científica e os tomadores de decisão apoiem ações como essas, que visam atenuar um problema que aflige várias regiões do globo e, em especial, o Brasil.