CDTS entrevista: Marcio L. Rodrigues em uma reflexão sobre a ciência em tempos de pandemia

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O pesquisador Marcio L. Rodrigues conversa com o CDTS sobre o que a polêmica em torno do papel da ciência e a falta de investimentos pode trazer de bom e ruim para a própria ciência

Muito se tem discutido e, polêmicas são criadas entorno da exigência de uma rápida resposta da ciência para conter a pandemia causada pelo novo coronavírus, o SARS-Cov-2. Olhos e ouvidos estão mais atentos que nunca para toda e qualquer notícia sobre o tema. A falta de investimentos e os recursos destinados às pesquisas é pauta por todos os lados e já entrou nas conversas diárias de todos que habitam esse planeta. Mas o que isso traz de bom e de ruim para a ciência? Para uma reflexão sobre a ciência em tempos de pandemia chamamos o microbiologista e pesquisador do Instituto Carlos Chagas da Fiocruz, Marcio L. Rodrigues. Pesquisador e Vice Coordenador do CDTS entre 2012 e 2017, Marcio permanece colaborando com o Centro na área de Formação de Recursos Humanos através do Acordo CAPES-CDTS. Em fevereiro, foi escolhido para integrar a Academia Americana de Microbiologia (American Academy of Microbiology), sendo um dos poucos representantes da América do Sul e o único que trabalha no Brasil.

“É importante ressaltar que mesmo nessas condições a ciência brasileira responde de forma extremamente positiva, o que nos faz imaginar que poderíamos ser uma potência científica em condições de investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.”

Investimentos em C&T são fundamentais no combate à novos agentes transmissores de doenças infecciosas, entretanto, a área tem sofrido vertiginosos cortes orçamentários nos últimos anos aqui no Brasil também. Como isso impacta em novas descobertas e na resposta às emergências sanitárias, como por exemplo o caso atual, na luta contra o novo coronavírus?

A tradução de conhecimento em benefícios para a população através das pesquisas científicas é um processo contínuo, porém conhecidamente lento. Em condições normais, um novo fármaco pode levar mais de 10 anos para entrar em uso clínico. Vacinas contra doenças como malária, por exemplo, foram estudadas por décadas para que candidatos vacinais tenham surgido. A interrupção ou desaceleração do processo de geração de conhecimento científico impacta diretamente, de forma negativa, nas descobertas científicas, o que certamente diminui nossa capacidade de responder a emergências como a que enfrentamos agora. É importante ressaltar que mesmo nessas condições a ciência brasileira responde de forma extremamente positiva, o que nos faz imaginar que poderíamos ser uma potência científica em condições de investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Nunca é demais lembrar o brilhantismo com o qual a comunidade científica brasileira enfrentou a emergência sanitária causada pelo Zika vírus.

Segundo dados da Universidade de Southampton antes da pandemia de COVID-19, o financiamento de pesquisas em coronavírus constituía apenas 0,5% dos gastos globais em estudos de doenças infecciosas por organizações públicas e filantrópicas. Os gastos aumentaram para US$ 985 milhões desde o início do surto atual. Esse aumento de financiamento também foi observado após os surtos de coronavírus de 2004 e 2015. Como você encara essa estratégia de investimento?

O investimento é bem-vindo, obviamente, mas a estratégia de combate nunca superará a eficiência da estratégia de prevenção. De forma geral, parece impossível antever emergências sanitárias, mas a literatura científica é claríssima ao demonstrar que vários dos problemas como o que enfrentamos atualmente podem ser previstos e prevenidos. Há 10 anos, por exemplo, cientistas apontaram que o aumento da temperatura global poderia selecionar patógenos fúngicos de grande importância médica. De fato, no ano passado, um patógeno multirresistente (Candida auris) de altos índices de mortalidade emergiu no mundo inteiro como consequência do aquecimento global, com opções limitadíssimas de tratamento. Esse exemplo ilustra com eficiência a capacidade da comunidade científica de antever emergências, mas é necessário que as autoridades de saúde pública deem a devida atenção à comunidade científica e apoiem suas observações.

A Associação Nacional dos Dirigentes das instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) divulgou que as universidades federais são responsáveis por mais 800 projetos de pesquisa em andamento, além de outras frentes de atuação. Como você avalia o papel dessas instituições no enfrentamento à COVID-19, mesmo diante das fortes críticas do atual governo?

O papel dessas instituições não é apenas fundamental, é único. Não se encontra no setor privado brasileiro força de pesquisa sequer comparável à existente no setor público. Não reconhecer essa característica significa acabar com a capacidade do Brasil de responder a emergências sanitárias.

Além das universidades, a Fiocruz tem contribuído de forma ímpar em várias áreas de atuação e, inclusive, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Entretanto, a presidente Nísia Trindade e a própria instituição vem sendo alvo de críticas nos últimos dias. Como você avalia esse contrassenso?

Infelizmente o país atravessa um momento de polarização política que mancha certas características sagradas da ciência, como por exemplo sua natureza apolítica. Ciência não se baseia em crenças ideológicas, mas sim em problemas a serem enfrentados e compreensão dos fenômenos naturais. A Fiocruz é uma instituição que serve ao Brasil com brilhantismo, modernidade e alta capacidade de resposta às necessidades da população. A presidente Nísia Trindade conduz a instituição com grande serenidade no momento mais complicado da história da saúde moderna e é realmente triste observar que algo tão claro não seja reconhecido por parte da população brasileira.

“Se há algum aspecto positivo na pandemia, esse aspecto é o reconhecimento da ciência como atividade fundamental para soberania e progresso de qualquer nação.”

Segundo dados de 2019 do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) sobre a percepção pública da C&T, mesmo com uma visão relativamente otimista em relação à área, cientistas são considerados como terceira opção de escolha quando o assunto é fonte de maior confiança. Apesar das grandes mudanças sociopolíticas dos últimos anos, incluindo ondas de “negacionismo” da ciência, você acredita que a experiência com COVID-19 pode alterar essa percepção social? Como você avalia o futuro da ciência brasileira e mundial no pós-pandemia?

Se há algum aspecto positivo na pandemia, esse aspecto é o reconhecimento da ciência como atividade fundamental para soberania e progresso de qualquer nação. Hoje é clara a percepção sobre a necessidade de autonomia do país na produção de equipamentos médicos, insumos e outros elementos necessários em situações de rotina e de emergência. Reconhecimento, entretanto, precisa ser traduzido em investimento e políticas de estruturação científica, contrabalançando atividades de educação, pesquisa básica e desenvolvimento tecnológico.

Como você vê iniciativas de discussão da ciência no Brasil como a Marcha Virtual pela Ciência do último 7 de maio organizada pela SBPC e apoiada por mais de 100 instituições e entidades científicas?

A marcha pela ciência é um evento pacífico sem nenhum objetivo que não seja defender a ciência. É pena que, dada a necessidade de isolamento social, uma marcha virtual tenha sido a única opção viáel, pois isso limita o alcance da defesa da ciência a frações da população com acesso a ferramentas virtuais. Ainda assim, a marcha teve grande adesão, o que mostra um outro aspecto da força científica: sua capacidade de mobilização em prol de interesse coletivos.

No editorial publicado em 13 de maio, H. Holden Thor, Editor Chefe da revista Science, escreveu sobre a exigência de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ao dizer "Faça-me um favor, acelere, acelere”, na Conferência Legislativa da Associação Nacional de Condados a respeito de uma vacina contra o SARS-Cov-2. E conclui que, “Pedir uma vacina e distorcer a ciência ao mesmo tempo são surpreendentemente dissonantes”. Você concorda? Se sim, na sua opinião, qual reflexão este momento traz para a ciência?

Reforçando minhas colocações em resposta ao primeiro questionamento dessa entrevista, é preciso lembrar que não se faz ciência da noite para o dia. Estamos aqui tratando de processos longos que só são considerados benéficos para a população quando são considerados seguros. Dessa forma, governos que desejam ferramentas de prevenção e tratamento de doenças diversas precisam de programas contínuos de investimento. Naturalmente, a posição do Dr. Thor resumiu brilhantemente o que é necessário para a tradução de conhecimento científico em benefícios, caso das vacinas: invistam continuamente em questões estratégicas e os benefícios virão. Interrompam ou reduzam os investimentos e nada teremos.

Entrevista por Gardênia Vargas e Fernanda Fonseca
Equipe de comunicação do CDTS